Memória, Consciência e Responsabilidade:
Reflexões a partir de Israel e do nosso tempo
Dia Nacional da Memória do Holocausto. 2026
Revmo. Dr. Miguel Uchoa
Há experiências que não se aprendem apenas com livros. Elas se gravam na alma. Durante o tempo em que vivi em Israel, tive o privilégio e o peso de participar dos dias memoriais daquele povo. Entre todos, um deles me marcou profundamente: o Dia Nacional da Memória do Holocausto, que se comemora hoje em Israel.
Naquele dia, o país literalmente para. Sirenes soam. Pessoas ficam imóveis. O silêncio não é vazio; é carregado de dor, memória e consciência. Ali não se trata apenas de lembrar o passado, mas de afirmar, com firmeza, que certas tragédias não podem se repetir.
A memória, nesse contexto, não é apenas histórica; é moral. E é exatamente isso que me inquieta ao observar o debate contemporâneo sobre os conflitos no Oriente Médio. Em muitos casos, as análises são feitas com base em alinhamentos ideológicos imediatos, ignorando a profundidade histórica, cultural e existencial envolvida.
O Estado de Israel não é apenas uma nação moderna; ele carrega a memória de um povo que experimentou, de forma sistemática, a tentativa de aniquilação. Essa memória molda sua percepção de ameaça e sua postura diante de riscos reais.
Ao mesmo tempo, é impossível ignorar que o Irã vive, há décadas, sob um regime que transformou profundamente sua estrutura política, religiosa e social. Usurpou a fé de um povo e sua identidade, impondo à força a fé islâmica fundamentalista e teocrática em um golpe de Estado religioso-político. Esse regime é ilegal e imoral. Creio que vocês devem saber que ali se encontrava a civilização persa. Achei ingênuo o comentário de alguns de que os EUA e Israel estavam destruindo uma civilização milenar, quando eles estão exatamente libertando essa civilização.
Há um histórico documentado de repressão interna e de posicionamentos hostis no cenário internacional. Não se trata de reduzir um povo ao seu governo, mas de reconhecer a realidade de regimes que exercem controle, limitam liberdades e, em muitos casos, sustentam discursos e ações que ampliam as tensões globais.
Diante disso, surge uma questão difícil, mas necessária: até que ponto a história nos ensina a agir preventivamente diante de ameaças? A memória do século XX levanta uma interrogação incômoda. Se o mundo tivesse reagido de forma mais firme e antecipada ao avanço de Hitler e do nazismo, quantas vidas poderiam ter sido poupadas? Os 6 milhões de judeus, os milhares de ciganos, homossexuais, artistas e intelectuais jamais teriam sido levados às câmaras de gás. Seria contra o direito internacional? E o direito internacional pode proteger massacres desse tipo?
O Holocausto não aconteceu de forma repentina; foi precedido por sinais claros, muitas vezes ignorados ou subestimados. Essa reflexão não autoriza simplificações nem justifica automaticamente qualquer ação contemporânea.
Cada contexto histórico possui suas próprias complexidades. No entanto, ela nos obriga a considerar que a inação diante de ameaças reais também acarreta consequências.
Do ponto de vista cristão, essa discussão exige ainda mais cuidado. Somos chamados à paz, à justiça e à dignidade da vida humana. Mas também somos chamados à verdade e à responsabilidade moral. A Escritura nos ensina que há tempo para todas as coisas (Eclesiastes 3), inclusive para discernir quando a proteção da vida exige decisões difíceis.
Isso não elimina o sofrimento causado por conflitos. Não relativiza perdas humanas. Não transforma a guerra em algo desejável. Mas nos impede de tratar realidades complexas com análises superficiais e de forma apenas ideológica. Talvez o maior risco do nosso tempo não seja apenas o conflito em si, mas a perda da capacidade de discernir em profundidade.
A memória do Holocausto nos chama não apenas a lembrar, mas também a refletir. Ela nos lembra que o mal, quando não confrontado, pode crescer silenciosamente. E que decisões difíceis, quando adiadas, podem acarretar consequências irreversíveis.
Por outro lado, também nos lembra de que toda vida importa. Que nenhum povo deva ser reduzido a narrativas simplistas. E que a busca pela justiça nunca pode se desconectar da compaixão.
Como cristãos, somos chamados a manter esse equilíbrio: memória sem ódio, discernimento sem precipitação, firmeza sem desumanização. E, acima de tudo, a orar.
Orar por paz.
Orar por justiça.
Orar por sabedoria.
Quando vivi em Israel, foi desencadeada uma operação bélica no sul do Líbano, na qual os israelitas tentavam eliminar o arsenal da OLP, e se chamou “Paz para a Galileia’ porque do sul do Líbano vinham as bombas para atingir Israel, algo que jamais parou e que ocorre hoje com o inimigo diferente , o hezbolah” A ação era justa, mas, a certa altura, foram cometidos abusos, o que desencadeou uma forte oposição em Israel. Vivendo ali, vivi também esse momento e uma grande manifestação contra o governo de Menachem Begin foi marcada em Tel Aviv pelo movimento chamado “Shalom Achshav” (PAZ agora)
A estrada do norte até Tel Aviv parecia uma carreata de ônibus, milhares de pessoas chegaram ali (400 mil estimadas). Podiam-se ouvir as canções vindas de dentro das centenas de ônibus enfileirados. Ali estava eu, um jovem brasileiro cristão evangélico, participando daquele momento histórico.
Quando decidi participar, uma jovem judia americana que estava no programa de intercâmbio junto comigo e que não iria à manifestação me arguiu severamente, dizendo: “Por que você vai participar disso? Você nem é judeu nem vive aqui, não faz sentido.” Ao que respondi? Com as palavras do Pastor luterano Martin Niemöller, uma das vozes mais ativas contra o nazismo de Hitler, preso em um campo de concentração e quando solto após a guerra, ele afirmou o que respondi àquela jovem:
“Primeiro vieram buscar os comunistas e eu não protestei, porque eu não era comunista
Depois vieram buscar os social-democratas, e eu não protestei porque eu não era social-democrata
Depois, vieram buscar os sindicalistas e eu não protestei porque não era sindicalista.
Depois, vieram buscar os judeus e eu não protestei porque eu não era judeu.
Então vieram me buscar e já não havia ninguém para protestar por mim.
E assim segui para aquele protesto histórico para me colocar no lugar daquele povo que sofria os abusos daquela guerra, que se iniciou “justa”, mas que prosseguiu com equívocos.
Porque em um mundo marcado por tensões, a nossa maior responsabilidade não é apenas tomar partido, mas manter a consciência sensível à verdade, à história e à dignidade de cada vida humana.